10 de nov de 2014

Acontistas

Ouvia os ruídos da madrugada, e neles ouvia a si mesmo; ainda que não percebesse.

Entendia aqueles que partiam ruidosamente em carros velozes rumo a destinos desconhecidos, em busca de sensações que não sabiam existir, procurando direção onde não havia, por definição, qualquer uma.

Eram todos rostos sem forma, corpos sem forma, espíritos indefiníveis em uma noite qualquer.

Silenciavam os gritos em suas cabeças ensurdecendo-se com a batida eletrônica, dançando dentro de cofres, apelidados de casas noturnas, e dali lançavam-se em direção a qualquer outro destino que os livrasse do dia, como se pudesse livrá-los deles mesmos; o dia é, afinal, o espelho: confrontar-se era inconcebível; onde estariam os sorrisos, os olhos brilhantes, a maquiagem reluzente, o corpo que mal responde por si?

Completos estranhos, apresentavam-se às 9h na segunda-feira, ansiando apenas por dias mais apressados; assim, chegada a sexta, lançariam-se de novo à uma noite qualquer, em busca sabe-se-lá do quê.


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Publicado por Renato Alt

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