3 de nov de 2014

Trítono

O sol era um insulto.

Passara a noite imerso em pensamentos, relembrando momentos que pareciam parte de outra vida.

E eram, como não?

De onde estava, olhando pela janela, viu o dia entregar-se à noite, exausto, levando consigo um tanto de esperanças e sonhos daqueles que despertaram acreditando que enfim seria agora, hoje, a mudança; seria a hora em que as coisas aconteceriam, quando a grande oportunidade apareceria e quando eles, com unhas e dentes, a agarrariam.

Mas não foi. O tempo, indiferente, deixara-se passar como se nenhuma responsabilidade tivesse sobre nenhum de nós.

E qual tem, afinal?

De onde estava, viu a noite receber o dia, com sofreguidão, sabendo que o ciclo se repetiria.

"Ah", deixou escapar enquanto fechava as cortinas para manter-se na escuridão.

Ansiava pela noite, e pela suas longas e silenciosas horas, que nada cobram de si.



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Publicado por Renato Alt

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